terça-feira, 15 de setembro de 2009

ÍNDIOS CARIJÓS

ÍNDIOS CARIJÓS
 

Carijó: seu território ia
de Cananéia (SP) até a Lagoa dos Patos (RS). Vistos como "o melhor gentio
da costa", foram receptivos à catequese. Isso não impediu sua escravização
em massa por parte dos colonos de São Vicente. Em 1554, participaram do ataque
a São Paulo. Eram cerca de 100 mil.


O litoral gaúcho e catarinense, ao tempo da descoberta, era
habitado pelos Guaranis, que se estendiam pelo interior, às
margens da imensa lagoa dos Patos.


É interessante a origem do nome desta
lagoa. Conta-se que m 1554, viajavam para o Prata algumas embarcações
espanholas, que acossadas por um temporal, viram-se na contingência
de procurar abrigo na barra do Rio Grande. Aí deixaram fugir
alguns patos que traziam a bordo e de tal modo se deram bem as
aves com o lugar, que se reproduziram assombrosamente, chegando a
coalhar a superfície das águas da lagoa, dando-lhe e nome.





Eram os carijós índios dóceis,
trabalhadores e bem intencionados. Pertenciam ao ramo Guarani e
efetuaram uma marcha migratória do Paraguai para o sul do litoral
brasileiro.


Ayolas, na conquista do Paraguai,
encontrou-se com os Carijós à margem de um rio que deságua
vinte quilômetros acima da foz do ramo principal do Pilcomaio,
onde os ameríndios em questão possuíam uma aldeia cercada por
uma paliçada dupla e guarnecida de "bocas de lobo"
(escavações com estrepes no fundo).

Os espanhóis acossados pela fome, marcharam resolutamente para a
vitória. Os índios, ao ouvirem os primeiros estampidos das armas
de fogo, fugiram em corrida louca, caindo muitos nas próprias
esparrelas que haviam armado aos invasores.


Depois de ocupar a taba, em homenagem a
Santíssima Virgem, deu Ayolas, o nome de Assunção.




COSTUMES



Os Carijós construíam suas casas
cobrindo-as com cascas de árvores e já fabricavam redes e
agasalhos com o algodão que cultivavam, forrando-as com peles e
ataviando-as com plumas e penas.  Acostumaram-se a ajudar
todos os navios que lhe solicitassem auxílio, até que um dia,
traídos na sua boa fé, acabaram considerando os brancos inimigos


Na arte de cura, os Carijós estavam bem
adiante dos demais nativos. O remédio principal era uma ventosa
aplicada pelos lábios do pajé.


Na bruxaria também eram bem
desenvolvidos. Para enfeitiçar um semelhante, costumavam amarrar
um sapo em uma árvore. Á medida que o nojento animal fenecia, a
pessoa enfeitiçada também enfraquecia até morrer.


Se desejavam cegar alguém,
enterravam-lhe debaixo da rede um ovo. Descoberta a mandinga, os
objetos que serviram para a mesma deviam ser arremessados ao rio.

Grande era o número dos que tinham
parentesco com um ser superior que chamavam de
"caraibebes", que os jesuítas traduziram por
"anjos". Gozavam de vida avantajada esses que,
manhosamente se inculcavam ministros dos "anjos".
Recebiam os melhores frutos da terra e as mais cobiçadas caças
que fossem abatidas pelas cercanias.


Quando um guerreiro partia para a guerra,
era honrado com um sopro do "caraibebe", para que não
morresse em combate. Entretanto, se alguns caía morto em luta,
havia a desculpa de que o infeliz, por seus pecados não se
tornara digno da benção do "anjo". Deste modo, esses
pajés se tornaram infalíveis, com prestígio inabalável entre
os seus crentes.


QUEM ERAM ELES?




É sem dúvida bem curioso o modo como se
explica a origem dos Carijós...


Naufragando nas proximidades da ilha de
Santa Catarina um navio português, seus tripulantes conseguiram
atingir a terra, então campeada pelos índios guaranis. Entre os
náufragos contavam-se o português Henrique Montes, o castelhano
Melchor Ramirez e o preto Francisco Pacheco, além de outros. Como
sucedeu a Caramuru e a João Ramalho, esses homens acabaram
unindo-se às índias, adotando um novo regime de vida. Resultado
de tal fato, foi o nascimento de inúmeros mestiços, mamelucos e
cafusos, que de algum modo alterou o aspecto dos indígenas, que
passaram a constituir uma sub-raça com a denominação de Carijós,
que significa arrancado do branco: o mestiço. Daí vem o costume
de chamarmos de carijós às galinhas de coloração preta e
branca.
>

 Fonte:Wikipédia

TRIBO CAETÉS

CAETÉS
Cau-ete, mata primitiva. Tribo indígena oriunda do tronco tupi que vivia no território tribal compreendido entre a ilha de Itamaracá, Igarassu, Pernambuco, até a foz do rio São Francisco, na divisa dos estados Alagoas e Sergipe.
Na Carta de Pero Vaz de Caminha esta tribo é apresentada como de feição parda, algo avermelhadada, de bons rostos e bons narizes, em geral são bem feitos, andam nus, sem cobertura alguma, não fazendo menor caso de cobrir ou mostrar suas vergonhas, e nisso são tão inocentes como quando mostram o rosto. Estudos demonstram que eles eram exímios pescadores e caçadores, construtores de embarcações e que cultivavam milho, feijão, fumo e mandioca.
A tribo caeté entre em confronto com os portugueses tão logo foram sendo escravizados para desenvolvimento da cana-de-açúcar. Entrando em confronto com os propósitos lusitanos, tornaram-se inimigos destes. Mantinham comércio com holandeses e franceses.
Esta tribo indígena é acusada pela história oficial como aquela que. por ocorrência do naufrágio do navio Nossa Senhora da Ajuda, em 1556, nos nos baixios de d. Rodrigo,hoje Barra de São Miguel, em Alagoas, que levava o bispo do Brasil, D. Pero Fernandes Sardinha, quando este e seus 98 tripulantes caem nas mãos e se tornam vítimas dos índios antropófagos. Tal incidente provocou a fúria da Igreja e da Inquisição, a ponto de promover juntamente com forças lusas uma repressão para dizimá-la completamente da face da terra.
Hoje vários estudos colocam em dúvida o incidente antropofágico que resultou na alcunha de que todo alagoano é um papa-bispo, direcionando que a verdadeira morte do primeiro bispo do Brasil ocorreu por vingança do Governador Geral, Duarte da Costa e seu filho Alvaro da Costa que poderiam ter tramado tal crime e incriminando os caetés.

Missionários sem cruz


Missionários sem cruz

Os brancos ajudam no ensino e na saúde,

mas sua maior missão é

preparar os índios para o futuro


Silvio Ferraz, do Xingu



 










Fotos: Paulo Jares




André Villas Bôas, há 21 anos entre os índios.
O dentista Eduardo Biral, a enfermeira Stela Würkir, sua mulher,
e o filho, Januário, um Tarzan brasileiro



Eles não usam barba, elas têm cabelos compridos e tranças.
Esguios, alimentados a peixe moqueado com biju, mingau de amendoim e frutas.
Falam baixo, dormem cedo e só têm uma conversa: índio. É a tribo dos brancos
composta de cientistas sociais, médicos, pedagogos, enfermeiras, biólogas
e engenheiros agrônomos, vindos de diversas regiões brasileiras. Boa parte
da engenhosa engenharia social e cultural que mantém o Parque do Xingu
funcionando em harmonia se deve ao trabalho desses especialistas.


O foco agora é preparar os índios para o inevitável confronto
com a civilização que um dia ocorrerá. As cidadezinhas vizinhas do parque
vão transformar-se em municípios de porte médio, a urbanização baterá
às portas da reserva. Os moradores do parque, cada vez mais, dependerão
de produtos fabricados pelo branco. Em todos os momentos da humanidade,
sempre que o choque ocorreu, o mais forte sobrepujou o mais fraco. Quase
sempre de forma violenta. Neste canto do Brasil, um punhado de brancos
está conseguindo driblar essa inevitabilidade. Procuram transformar o
abraço sufocante em um caminhar de mãos dadas de culturas tão diferentes.


Com um pé na selva e outro no asfalto, André Villas Bôas
é o "cacique" dessa tribo de brancos. Diretor do Instituto Socioambiental,
ONG paulista apoiada pelo governo da Noruega e pelo cantor Sting, convive
com os índios há 21 anos. Apesar do nome, André tem apenas um longínquo
parentesco com os irmãos Villas-Boas, inspiradores do Parque do Xingu.
Depois de ter morado com os xavantes, no Solimões, com os tikunas, no
Alto Solimões e no Xingu, o cientista social conduz o mapeamento, por
meio de satélite, de toda a região xinguana. Nele aparecem, sem retoques,
as ameaças externas: o avanço do desmatamento, a destruição das cabeceiras
dos rios, a poluição ambiental.











Fotos: Paulo Jares


Índios aprendem a ensinar as crianças de suas tribos: geografia,
história e cálculos





Outro que optou pelo verde, deixando para trás uma clínica potencialmente
rendosa em São Paulo, é o dentista Eduardo Biral. Com uma frase, traduz
a complicação que se instala na cabeça dos que convivem com ele: "Minha
família acha que sou comunista, os índios pensam que sou milionário e
meus colegas paulistas, que sou pirado". Eduardo acha que seu destino
é tratar os dentes dos índios numa cadeira de tábuas, à sombra de uma
mangueira. "Sou um escultor de dentes", diz, com luvas cirúrgicas,
tratando a fila de crianças e adolescentes dos índios suyás. Usa um cimento
dental muito resistente desenvolvido pelos americanos durante a Guerra
do Vietnã, e, enquanto obtura as cáries, sussurra delicadamente com os
pacientes na própria língua suyá. Os kayapós, da aldeia metuktire, levaram
o reconhecimento a Biral mais longe. Nomearam Takakran e Koiman Tekré,
seus pais adotivos. Sua mulher, Stela Würkir, enfermeira, há vinte anos
trabalhando com os índios, deixou Higienópolis, bairro paulistano, e embrenhou-se
na mata em 1980, de onde nunca mais saiu. Stela criou no Xingu um grupo
de "agentes de saúde", índios treinados para suprir a ausência
de enfermeiras e médicos nas emergências. De seu casamento com Biral nasceu,
em 1982, Januário, o "Janu", ou "Bep Kangró", como
querem os que moram na aldeia Metuktire. É o Tarzã brasileiro. Nas noites
de luar pode ser visto de pé numa esquálida canoa, pescando jacarés com
arco e flecha. "Desde os 12 anos é ele quem abastece de proteína
a casa", orgulha-se o pai. Faz grande sucesso entre as índias e seus
melhores amigos são índios. Janu não se perturba com a dupla nacionalidade.
Não abandonou a civilização dos brancos. Estuda por correspondência, no
curso especializado do Anglo-Americano, tradicional colégio carioca.











Maria Cristina Troncarelli, pedagoga, ex-artista
de circo: currículo adaptado



"Bimba", como é mais conhecida a professora paulista
Maria Cristina Troncarelli, 37 anos, dos quais quinze no Xingu, foi atriz
e engolidora de fogo nos circos do ABC paulista antes de ir para o mato.
Hoje toca um programa educacional adaptado para os indígenas. Seu entusiasmo
contagia os 53 instrutores tribais reunidos a sua volta, para aprender
a língua dos brancos. Entre os índios, quanto melhor falar o português,
maior status na tribo. O português, na região, é o idioma do entendimento,
já que as catorze etnias têm línguas próprias. Sem preconceitos, sua didática
recorre a vídeos ou a palestras de velhos guerreiros. Seu curso atrai
indígenas até do Acre. De sua união com um índio kaiabi nasceram as gêmeas
que vivem em São Paulo e visitam os avós índios durante as férias.



Os agrônomos Geraldo Mosimann da Silva e Wemerson Ballester
ensinam apicultura. Com trajes especiais, os 25 apicultores indígenas
produziram 600 quilos de mel neste ano. A meta são 2 toneladas. Os índios
estão a um passo de comercializar seu produto, com o apelo de marketing
de ser produzido por floradas exóticas, desconhecidas pelo consumidor
das grandes cidades. A bióloga curitibana Simone Ferreira de Attayde,
mulher de Geraldo, é outra que enfrenta banho de rio, casa com chão de
terra batida e baratas para organizar o comércio do artesanato indígena.
"Estamos tentando manter viva a cultura dos kaiabis na confecção
das lindas panelas de barro. Não é fácil. O barro daqui, quando vai ao
fogo, racha", explica Simone. A tribo dos brancos no Xingu já enxergou
o futuro. Nele, os índios, sem o paternalismo do governo, que criou e
mantém em bases sólidas a reserva, terão de conviver com seus vizinhos.
Quanto mais bem preparados estiverem, maiores serão as chances de manter
seu modo de vida intocado.

 





Os arquitetos da pacificação















Foto: Hevio Rodrigues




Orlando (acima)
chora na homenagem ao irmão Cláudio:

"Meu lugar é aqui"

Rondon (ao lado)
no
mato desde jovem. Seu
lema: "Morrer,
se
preciso for,
matar jamais"



Rondon e Villas-Boas são, no fundo, os pilares
sobre os quais se assenta hoje toda a política indigenista que rege
o Xingu. Sorte dos índios, sorte dos brancos. O homem que tinha
como lema "Morrer, se preciso for, matar jamais" foi inspirado,
no início do século, a embrenhar-se selva adentro, em locais onde
o homem branco nunca havia pisado. O militar, sertanista e geógrafo
Cândido Mariano da Silva Rondon dedicou a vida a promover a colonização
do interior brasileiro. Por onde passava, Rondon pacificava e tratava
a minoria selvagem. Descendente por parte de mãe dos índios terenos,
o militar descobriu montanhas, rios, corrigiu mapas e construiu
linhas telegráficas Brasil afora, rompendo até o isolamento da Bolívia
e do Paraguai. A tribo bororo ficou tão reconhecida ao militar que
lhe reservou um inusitado presente: a mais linda e mais jovem donzela.
Rondon nunca a viu. Era um tímido.



Seguidores da sua filosofia, os irmãos sertanistas
Cláudio, Orlando e Leonardo Villas-Boas mergulharam na missão de
desviar as tribos da rota da extinção. Ela ocorreria por conflitos
armados ou por epidemias, à medida que os contatos com os brancos
se tornassem mais intensos e freqüentes. Pacificaram as tribos do
Xingu e inspiraram a criação de um santuário, o atual Parque do
Xingu. Para lá levaram quinze etnias diferentes, cada qual com seus
usos e costumes e, não raro, inimigas entre si. Pacificados, hoje
os índios vivem o que chamam de "a longa trégua". Orlando
é o sobrevivente, uma legenda. Seu irmão Cláudio é tido pelos índios
yawalapitis como o "espírito do bem que zela por seu povo".
Sobre Orlando, o cacique Aritana sussurra com olhos marejados: "Queremos
ele bem vivo, mas quando chegar a hora repousará no Xingu".

Font= Revista veja Editora abril

O PARAÍSO CERCADO


segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Os guardiães do verde

Os guardiães do verde

As tribos do Xingu em paz, mas alertas

para a guerra contra os destruidores da natureza


Silvio Ferraz, do Xingu


 



Fotos: Paulo Jares

Posto Diauarum: porta de entrada das tribos
para o
Xingu. Festa da Taquara: diariamente, durante
três
meses, para afastar tristeza

Defendido com bordunas, flechas e muita
lábia pelos 3.600 índios de catorze etnias que habitam a região, o Parque
Nacional do Xingu sobrevive milagrosamente sem poluição com sua fauna
e flora intocadas. As fotos de satélite feitas do centro do país, onde
está encravada a reserva indígena, são desoladoras. Pecuaristas e madeireiras
transformaram a região em uma gigantesca mesa de bilhar. O negócio deles
é tocado sem o menor respeito pela natureza, de modo que a floresta é
queimada em busca de árvores de valor comercial ou simplesmente derrubada
para se transformar em pasto. Sobrou uma ilha verde cercada de desmazelo
ecológico, a terra dos índios do Xingu. Pergunte-se a dez habitantes do
planeta Terra quem são os civilizados nessa região e a resposta nesses
tempos ecologicamente corretos será: os índios.





Educação

Os
índios preparam-se para gerir o próprio território. Aprendem português,
geografia, ciências, cálculo porcentual e a fazer tabelas. Os cursos
usam até vídeos.


Os mais velhos são chamados
para narrar as tradições de seus povos. Ser professor é um cargo
cobiçado nas tribos.


Localizado no norte de Mato Grosso, divisa com o Pará, espalhado por
27.000 quilômetros quadrados, quase o tamanho
da Bélgica, o Parque Nacional do Xingu foi uma iniciativa de sertanistas
liderados pelos irmãos Cláudio, Orlando e Leonardo Villas-Boas. Materializada
em 1961 pelo presidente Jânio Quadros, para preservar a cultura, os hábitos
e a religião desses povos, ninguém dava nada pelo destino da reserva.
Instalada em terras pertencentes à União, acabou vingando. Sem seringais
nativos, livrou-se da cobiça dos exploradores. Os Villas-Boas buscaram
uma política de preservação isolada. Ou seja, manter os índios o mais
distante possível da cultura dos brancos. Assim conseguiram evitar os
choques que teriam estraçalhado o lado mais fraco. Os contatos eram tão
controlados que os indígenas eram obrigados a pedir licença quando iam
viajar para os vilarejos mais próximos do Parque do Xingu. "Queríamos
mantê-los longe da cachaça e dos bordéis", conta Orlando Villas-Boas,
hoje acompanhando a vida no Xingu de sua casa no Alto da Lapa, em São
Paulo, visitada periodicamente por seus amados índios.







Fotos: Paulo Jares


Jovens da tribo
Kamaiurá passam urucum contra os
mosquitos. No Xingu a
expectativa de vida subiu para 50 anos

Saúde


A população recebe cuidados médicos da
Escola Paulista de Medicina. Já houve um caso de Aids. Os índios
escovam os dentes
três vezes
ao dia,
num programa da Colgate-Palmolive
que distribui 20 000 escovas e tubos de pasta
de
dentes por ano.

 


"Nossa maior conquista foi a pacificação", garante Orlando.
De fato, não foi fácil quebrar vocações guerreiras como a dos índios suyás.
Seu esporte preferido era a guerra. Os jovens, desde cedo, recebiam cultura
militar dos guerreiros e, dos mais velhos, histórias de grandes feitos.
Quando a paz monótona se prolongava, os suyás tratavam de quebrá-la com
expedições punitivas aos territórios dos jurunas ou dos kamaiurás ou trumais.
Hoje, netos de avós que se odiavam bebem na mesma cuia sem temer a morte
por envenenamento. Além da pacificação das tribos que se entredevoravam
há menos de meio século, os brancos tomaram outra providência vital: a
aplicação regular de vacinas permitiu o crescimento populacional. Atualmente,
com uma taxa de natalidade de 3,6%, os índios se multiplicam mais velozmente
que a média dos demais brasileiros. A expectativa de vida entre eles aumenta
num ritmo mais animador que a dos demais grupos populacionais brasileiros.
Chegou a 50 anos no ano passado e segue crescendo. A média brasileira,
de 68 anos, continua subindo, porém mais lentamente que a dos índios do
Xingu. Portanto, não está distante o dia em que, mantida a atual situação,
os índios do Xingu estarão vivendo mais e, sem dúvida, melhor que seus
vizinhos do centro geodésico do país.


Graças à sabedoria de algumas lideranças indígenas e brancas, o Xingu
é hoje um raro arranjo harmônico entre culturas díspares. Foram os brancos
que escolheram a área da reserva e que pacientemente transportaram em
aviões militares um a um todos os índios, vindos de vários pontos da Amazônia,
para seu novo lar. Com isso tiraram os indígenas da rota certa do extermínio.
Obviamente, não se faz uma transposição dessas sem um preço. Os brancos
introduziram o sal na dieta e, com ele, a hipertensão arterial. Enfermidades
cardíacas e diabetes, outros males que passaram a ser conhecidos dos índios.
"Mais recentemente apareceu até um caso de Aids, o problema é raro,
mas já preocupa", diz o médico Douglas Rodrigues, coordenador da
equipe da Universidade Federal de São Paulo que, desde 1965, cuida das
doenças mais sérias das tribos entre elas
as mais resistentes, gripe e tuberculose. São quatro viagens anuais à
região, o que dá aos índios um padrão de assistência de muito boa qualidade.


A nova geração xinguana aprende a preservar a natureza, mantendo a identidade.
Inevitavelmente, convive com sandálias havaianas, pilhas, lanternas, calções
de brim, camisetas do Flamengo e do Palmeiras e até mesmo clones de tênis
usados na orla carioca ou nas ruas de São Paulo. Barcos de alumínio impulsionados
por motores de popa de 25 cavalos, rádios, poucos aparelhos de televisão
com antenas parabólicas movidas a bateria solar quebram o silêncio e completam
as concessões ao modernismo.










Fotos: Paulo Jares



O cacique Kuiussi, dos suyás, ladeado pelos pajés, reúne suas
forças: seus guerreiros, as duas mulheres e as crianças. Índias yawalapitis
ralam a mandioca-brava, base da alimentação sadia.
Os guerreiros não vão mais à guerra, e a luta "huca-huca"
virou esporte que só perde para o futebol


 


A viagem, descendo o rio, um mergulho no paraíso. As praias surgem a
partir de maio e vão até setembro, quando as chuvas recomeçam e o rio
sobe e invade as matas. As areias finíssimas, alvas e com pequenas dunas
onde pousam garças e uma infinidade de pássaros silvestres emolduram a
mata fechada. A duas horas do Posto Diauarum, aparece o Suiá-Miçu, afluente
do majestoso Rio Xingu. Mais uma hora, despontam as primeiras malocas
da aldeia rikô, da tribo suyá. O cacique é Kuiussi pintado com urucum,
para espantar os enxames de mosquitos. Farta cabeleira negra penteada
até os ombros, a narina esquerda sem um pedaço, sem que isso o faça mais
amedrontador. Kuiussi chegou ao Xingu com 2 anos. Sua tribo desaparecia
aceleradamente. Cláudio Villas-Boas livrou os suyás da extinção. Hoje
eles são quase 300 orgulhosos sobreviventes. Até a língua suyá, que morria,
revigorou-se.






Economia


Os kaiabis são mestres em panelas de barro
e na cestaria. Os bancos dos kamaiurás, imitando animais, são cobiçados.
Todos são agricultores. Mandioca, banana, amendoim e milho são culturas
de base. Entre si, vivem de trocas. Começaram a exportar para São
Paulo e Rio.



O coração do país é um lugar feliz. Ali, festa e trabalho se confundem.
São 3 horas da manhã, e o silêncio da noite na floresta é cortado, de
repente, pela batida surda dos tambores. Começa a festa do Kahrankasaka,
a "festa do tracajá feio", a pequena tartaruga que povoa os
rios da região. Só para homens. Chocalhos nas pernas e nos tornozelos,
cantam e dançam em círculo até o sol raiar, em homenagem à chuva que faz
a água, à água que faz o rio, ao rio que alimenta os peixes, aos peixes
que alimentam os homens. O sol, a luz, o dia e a noite, as árvores, as
onças e as pacas, antas e abelhas são homenageados. Até mesmo o rato.
Os suyás acreditam que, por ter descoberto o milho, o rato merece graças.
As mulheres também têm sua festa particular: a principal é a Yamurekumã,
com data móvel. Reza a lenda que, cansadas de só comer o jacaré caçado
pelos companheiros, elas os punem com uma greve sexual. Na noite em que
o mito é relembrado, as índias surram os homens e nem o cacique e o pajé
livram-se de boas bordoadas. É para feminista nenhuma botar defeito.





Fotos: Helvio Romero


Os yawalapitis amarram as pernas e os
braços
para realçar a musculatura. Altos, sadios,
trabalham na
agricultura e abastecem a casa com peixe e caça


Enquanto a civilização ainda engatinha com o v-chip, a solução eletrônica
que vai permitir aos pais censurar os programas de televisão inadequados
para seus filhos, os caciques do Xingu já resolveram o problema. Foram
radicais. Eles perceberam que as brincadeiras das crianças tornavam-se
violentas depois que assistiam a programas de televisão e simplesmente
baixaram a ordem: desligar os aparelhos. Todo mundo obedece.


A paz vale ouro quando se é obrigado a conviver num espaço territorial
limitado. A transformação dos índios ykpengs de selvagens ranzinzas e
agressivos a um povo que valoriza a convivência pacífica é emblemática
no Xingu. O cacique ykpeng, também pajé, uma espécie de sacerdote e curandeiro,
é Melobô, um "estadista ateniense", como é descrito pelo antropólogo
Darcy Secchi. Apesar da fisionomia dura, Melobô ama a política e a negociação.
É a voz de oposição a outra força política, o prestigioso Aritana, cacique
dos yawalapitis, no Alto Xingu. No passado acabariam medindo forças num
combate sanguinário. Hoje, Aritana e Melobô estão unidos contra o inimigo
externo, os fazendeiros que sempre ensaiam invadir a reserva.





Política


Há menos de meio século, as tribos que
hoje habitam o Xingu guerreavam o tempo todo. Kaiabi não podia ver
kayapó. Juruna que cruzasse com suyá morria. Atualmente, vivem o
que chamam
de "longa trégua".
A luta agora é pela preservação ambiental.


O cacique Aritana é um autêntico embaixador. Carismático, muito conhecido
fora do Xingu, ele domina com fluência nove idiomas indígenas. É dele
a estratégia da geopolítica do casamento, a pacificação pelo matrimônio.
Está dando certo. Casado com duas irmãs, Timai e Sakastro, Aritana é pai
de nove filhos. Sua política consiste em solidificar a paz no Alto Xingu
por intermédio de alianças matrimoniais com outras tribos, bordando uma
verdadeira colcha de interesses e conveniências. Aritana parece habilitado
a isso, já que é capaz de manter a paz em sua casa, onde vive com duas
mulheres luxo que só os caciques ou os
guerreiros que podem sustentar usufruem. "A grande vantagem, no meu
caso, é só ter uma sogra", confessa com uma gostosa gargalhada. Alto,
forte, o cacique dos yawalapitis mantém os braços cruzados e o olhar enviesado
enquanto conversa. Ele conta que os suyás, os amantes da guerra, os waurás,
os "do contra", e os implicantes jurunas eram grandes inimigos
de sua gente à época de seu avô: "Vinham, lutavam e roubavam até
nossas mulheres". Ele próprio é personagem de um desses "raptos
das Sabinas". Seu pai, Parú, reconhecido pajé especialista em ervas,
tornara-se amigo de Orlando Villas-Boas ainda nos tempos da pacificação
dos índios do Brasil central, nos idos dos anos 50. Com a cumplicidade
do sertanista, Parú seqüestrou uma mulher de outra tribo, com a qual se
casou, e daí nasceu Aritana. Pairando acima desses caciques, a imagem
de Mairawê Kaiabi, presidente eleito da Associação das Terras Indígenas
do Xingu, Atix, uma espécie de ONU dos índios.


Consensual e politicamente correto, o cacique é um personagem cujas funções
são pouco conhecidas fora do Xingu. Ele é uma espécie de capataz, o sujeito
que lembra aos demais das tarefas que precisam ser executadas. É incontrastável.
Para amaciar o poder existe o pajé, o único índio da hierarquia que está
acima do bem e do mal. É ele o responsável pelo bem-estar de seu povo.
Quando os médicos brancos chegaram ao Xingu para tratar dos índios, a
primeira coisa que os pajés providenciaram foi a delimitação das áreas
de atuação dos médicos e dos pajés. Exemplo prático dessa divisão é o
parto. O pajé tira a criança da barriga da mãe, dá umas boas baforadas
para espantar os maus espíritos e passa o recém-nascido para os médicos,
que se ocupam do cordão umbilical, da vacina antitetânica e dos antibióticos.
Ocorrem situações difíceis nessa divisão de atribuições. Às vezes, algum
doente carece de cuidados médicos urgentes para não morrer, mas os pajés
teimam em continuar com suas ervas e baforadas. Eventualmente o paciente
morre. Os médicos lamentam, mas não se intrometem.


A única aldeia em que o poder do pajé se encontra virtualmente ofuscado
é a do Sobradinho. Ali, os kaiabis fizeram um pacto original com a Assembléia
de Deus. Os religiosos pediram permissão ao cacique Matari para converter
sua tribo. O cacique pediu tempo. Três dias depois, veio a contraproposta:
ele e seu filho Aturi deveriam ser nomeados, de imediato, pastores da
Assembléia de Deus. Os protestantes toparam. Hoje, é a única tribo em
que o nu foi abolido, pelo menos em teoria. "Na hora do sufoco, todos
suspiram por uma pajelança", confidencia, com rancor mal camuflado,
um pajé de outra tribo kaiabi. Os kalapalos da aldeia tanguro também caíram
na tentação dos padres salesianos. Em troca da permissão para catequeses,
alguns índios vão, aos cuidados dos padres, estudar em São Carlos, interior
paulista. Tem sido assim a vida nesta nesga de terra privilegiada do Brasil.
A natureza agradece. As gerações vindouras de índios e brancos também
Font= Revista veja Editora abril