terça-feira, 9 de março de 2010

Histórias da grande nação Guarani

OS GUARANI
det105.jpg (10876 bytes)A grande nação Guarani, que à época da conquista conglomerava diversos povos, teve seu projeto histórico interrompido e subordinado à conquista espanhola. Em 1537 (data da chegada dos conquistadores espanhóis a Assunción), parte desses povos Guarani viram-se frente a frente com os juruá e, consequentemente, com todo o projeto colonial da coroa espanhola, com missionários sedentos de almas e soldados venturosos em busca de glória e riqueza.
Parte destes índios foi incorporada pelas engrenagens da imensa e complexa máquina colonial nas inúmeras encomiendas(1) espanholas, sofrendo um terrível e imediato ocaso demográfico. Segundo alguns estudos, desses grupos ecomiendados não sobrou mais do que 10% da população original, dizimada tanto pela intensidade do trabalho forçado, quanto pelas inúmeras doenças trazidas pelos conquistadores. Posteriormente, estes índios, descaracterizados, diluíram-se junto as populações invasoras européias. O antropólogo Darcy Ribeiro aponta o mesmo processo na conquista da América Portuguesa:

"Milhares de índios foram incorporados por essa via à sociedade colonial. Incorporados não para se integraram nela na qualidade de membros, mas para serem desgastados até a morte, servindo como bestas de carga a quem deles se apropriava. Assim foi ao longo dos séculos, uma vez que cada frente de expansão que se abria sobre uma área nova, deparando lá com tribos arredias, fazia delas imediatamente um manancial de trabalhadores cativos e de mulheres capturadas para o trabalho agrícola, para a gestação de crianças e para o cativeiro doméstico".(2)
Um segundo grupo, que podemos chamar de índios missioneros, encontrou refúgio da sanha colonialista nas reduções dos missionários jesuítas espanhóis e portugueses - "el hecho es que ha difundido el buen olro de los nuestros entre los habitantes de Guarambaré, y esto mismo saca a los indios de sus esconderijos, adonde se habían refugiado por miedo de los españoles, animándoles a ponerse a salvo bajo nuestro amparo"(3)- e, durante um certo tempo, apesar dos enormes esforços de catequização por parte dos religiosos, conseguiu, ainda que de forma camuflada, reproduzir-se culturalmente.
det106.jpg (12233 bytes)Com o fim das reduções e a conseqüente expulsão dos jesuítas das colônias ibéricas, esses Guarani das Missões foram vitimados por freqüentes e violentas expedições de apresamento por parte dos bandeirantes paulistas e pela cobiça dos encomenderos espanhóis. Os que, posteriormente, sobreviveram a este genocídio não retornaram às matas; ao contrário, como muitos deles haviam aprendido ofícios diversos e haviam tornado-se artesãos, marceneiros, carpinteiros e músicos, dirigiram-se aos grandes centros urbanos da época, estabelecendo-se nas cercanias de Montevidéu, Buenos Aires e Santa Fé.
Um terceiro grupo Guarani permaneceu fora do alcance das garras coloniais, escondendo-se nas densas florestas paraguaias.
    "Durante la época colonial, a lo largo del siglo XIX y hasta la actualidade, hubo grupos guaraní que conseguieron sobrevivir libres del sistema colonial. Selvas relativamente alejadas de los centros de población colonial, poco o nada transitadas por los "civilizados", los mantuvieron lo suficientemente aislados para que pudieron perpetuar su ‘modo de ser’ tradicional. Considerados apenas como sobreviventes de un mundo ya superado, fueron denominados genéricamente ‘Kaygua’ y ‘montaraces’. Apenas conocidos, sólo fueron raramente visitados por algún que otro viajante en el siglo XIX y pudieron pasar tranquilamente hasta el siglo XX sin especiales interferencias exteriores".(4)
Ainda segundo Bartomeu Meliá, os atuais Guarani Mbya, Ñandeva e Kaiowá descendem deste terceiro grupo.
Certamente, estas divisões não são mecânicas e, ao que tudo indica, mesmo esses mais grupos arredios mantinham um certo contato entre si, como afirmam os escritos do capitão-de-fragata D. Juan Francisco de Aguirre, que em 1777 travou contato com diversos grupos destes índios "...salem por parcialidades a tratar y aún asalariarse con los españoles de los benefícios de la hierba, particularmente por hachas, machetes, cuchillos. Venden frutos de chacareo como batatas, mandioca y maíz y trabajan en la faena de barcos, o ranchos".(5)
As primeiras levas Guarani que chegaram a São Paulo remontam a meados do século XIX. Em 1835, temos as primeiras notícias de grupos de Guarani-Ñandeva que aportaram na região de Iguape, onde entraram em confronto com a comunidade não-índia local. Segundo relatos de Nimuendaju, esse grupo oriundo do Paraguai vinha em peregrinação messiânica rumo à "terra-sem-males", paraíso mítico Guarani localizado ao leste, ao sol nascente.
"Os primeiros que abandonaram a sua pátria, migrando para o leste foram os vizinhos meridionais dos Apapocúva: a horda dos Tañyguá, sob a liderança do pajé chefe Ñanderyquyní, que era temido feiticeiro. Subiram lentamente pela margem direita do Paraná, atravessando a região dos Apapocúva, até chegar à dos Oguauíva, onde seu guia morreu. Seu sucessor, Ñanderuí, atravessou com a horda do Paraná - sem canoas, como conta a lenda - , pouco abaixo da foz do Ivahy, subindo então pela margem esquerda deste rio até a região de Villa Rica, onde cruzando o Ivahy, passou-se para o Tibagy, que atravessou na região de Morro Agudos. Rumando sempre em direção ao leste, atravessou com seu grupo o rio das Cinzas e o Itararé até se deparar, finalmente com os povoados de Paranapitinga e Pescaria na cidade de Itapetinga, cujos primeiros colonos nada melhor souberam fazer que arrastar os recém-chegados a escravidão. Eles porém, conseguiram fugir, perseverando tenazmente em seu projeto original, não de volta para o oeste, mas para o sul, em direção ao mar. Escondidos nos ermos das montanhas da Serra dos Itatins fixaram-se então, a fim de se prepararem para a viagem milagrosa através do mar à terra onde não mais se morre.
Os antigos habitantes do litoral, os Karijó, já então estavam há muito extintos; quando se espalhou pelas colônias da região da Ribeira a notícia da chegada de novos índios, empreendeu-se imediatamente uma expedição contra estes. Os Tañyguá, no entanto, estavam de sobreaviso. Sob o comando de Avuçu, seu melhor guerreiro, fizeram muito habilmente uma emboscada a seus perseguidores, perto da desembocadura do rio do Peixe no Itariry, infligindo-lhes perdas que os rechaçaram. Afinal, conseguiu-se de forma amigável o que com força não se alcançara: por intermédio de um índio conhecido como Capitão Guaçu, os brasileiros estabeleceram relações amistosas com os Tañyguá, e estes receberam em 1837, do Governo, uma légua quadrada [légua em quadra ?] de terra do rio do Peixe e no rio Itariry".(6)
Os Guarani Mbya começaram a chegar, ao que se sabe, a partir do início do século XX. Em 1921, Nimuendaju, na época funcionário da antigo SPI, teve a ventura de acompanhar de perto a migração de um pequeno grupo Mbya rumo ao mar. Esta fantástica experiência não modificou apenas o modo desse antropólogo alemão encarar a sociedade Guarani, como a partir de então, iria influenciar de maneira decisiva, o modo como a maioria dos antropólogos passaria a ver os Guarani.
Ao inteirar-se de que meia dúzia de índios guarani encontrava-se acampada a 13 km a oeste de São Paulo, às margens do rio Tietê, Nimuendaju, temeu que a imprensa fizesse um escarcéu sobre o assunto e dirigiu-se imediatamente ao pequeno acampamento:

"(...) em hipótese nenhuma poder-se-ia deixá-los entregues à sua sorte. Não só porque esta teria sido bastante triste, com também porque a imprensa se apropriaria do caso, exagerando-o e o utilizando para todos os fins propagandísticos possíveis".(7)
Nimuendaju encontrou-os extenuados, em terrível estado de miséria. Naquela mesma noite uma criança morreu, aumentando ainda mais seus temores em relação à imprensa - "eles queriam atravessar o mar em direção ao leste; tamanha era sua confiança no sucesso deste plano que quase levou-me ao desespero."
Após tentar, reiteradas vezes fazê-los mudar de idéia, Nimuendaju rendeu-se à persistência daqueles índios e resolveu acompanhá-los até o fim daquela jornada.
Efetivamente, após três dias de caminhada, eles chegaram à Praia Grande, litoral sul de São Paulo. Era noite, estava chovendo e, naturalmente, os índios não enxergaram o mar. Após essa noite chuvosa, o dia seguinte raiou límpido. E o mar pôde mostrar-se em todo seu esplendor para aquele pequeno grupo. Um espetáculo que aqueles guarani nunca haviam visto, que frustrou de modo brutal todas as suas expectativas de alcançarem a "terra-sem-males" através do mar. Segundo Nimuendaju:

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"Visivelmente, toda a situação lhes parecia extremamente lúgubre. Eles haviam aparentemente, imaginado o mar de forma totalmente diversa e, sobretudo, não tão terrivelmente grande. Sua confiança havia sofrido um golpe violento".(8)
Nesse momento de seu livro, Nimeundaju elabora a pergunta que modificaria toda a literatura produzida a partir de então sobre os Guarani: não será a causa das migrações dos grupos tupi-guarani e, conseqüentemente, dos Guarani, orientada por um viés religioso e não por seu caráter guerreiro?

"(...) poderá a marcante expansão daquelas hordas ao longo do mar, observada no início do século XVI, ser atribuída a causas bélicas, como se costuma supor, ou a motivos religiosos?"(9)
Não seria a busca da "terra-sem-mal" o grande impulsionador das caminhadas Tupi?
Segundo Bartomeu Meliá, com esta questão Nimuendaju lança a pedra fundamental que iria alicerçar todos os estudos acerca dos Guarani: a busca da "terra-sem-males" como fator essencial para se entender o Guarani e sua visão mundo. Entretanto, nesse momento, também ocorre uma "Mbyalização" do Guarani. Segundo Meliá, Nimuendaju possivelmente não sabia que se tratava de um grupo de Guarani Mbya. E esta experiência de meia dúzia de índios Mbya, foi ampliada conceitualmente para todos os outros subgrupos Guarani, influenciando todas as outras interpretações, estudos e discussões acerca da expansão Guarani, seja ele Mbya, Kaiowá ou Ñandeva.

"Mas por que estariam migrando? Na interpretação de Susnik, seria porque seu habitat original ‘no representaba ventajas potenciales para el cultivo por rozado, de donde las primeiras tendências del ogwata expansivo hacia el sureste rumbo a los rios Amaby e Yguatemi’. Para Nimuendaju, estariam em busca da Terra sem Mal, idéia também apoiada por Meliá, por considerar que o Chaco, a ser atravessado pelos Itatim, não apresentava características próprias das terras buscadas pelos Guarani, na sua expansão pelas bacias do Paraguai, Paraná e Uruguai. Segundo pesquisas mais recentes, a expansão guarani em direção a estas bacias estava ligada ao aumento demográfico e consequente necessidade de novos espaços ao manejo agro-florestal que adquiriam e que permitia dominar e incorporar novas áreas".(10)
Dentre os três subgrupos Guarani já citados, o Mbya é o que vem tendo maiores reservas com relação à educação formal, principalmente devido à sua profunda religiosidade e apego à tradição. Este subgrupofig5a.jpg (21037 bytes) herdou todo o misticismo Guarani em suas rezas e seu modo de encarar o mundo não-índio, utilizando esta característica cultural como forma e estratégia de resistência a um mundo que considera ñeychyrõgui arauka i anguãema ("terrível e imperfeito").
O rezador guarani, Ñanderu’i, nos traz a imagem criada por Bosch em uma de suas pinturas mais significativas, As Tentações de Santo Antão, na qual o homem santo encontra-se refugiado em seu oratório cercado por um mundo pecaminoso e imperfeito. Assim como o Santo Antão de Bosch, o rezador Mbya refugia-se em seu tekohá em busca de expiação, isolando-se de todo o contato com o mundo exterior, isto é, exterior à tradição Guarani, ao ñande reko. Somente através da rememoração (no sentido mítico de retornar a pureza original, ab origine) obtida pela reza, é que o Mbya talvez acumule forças suficientes para empreender a grande viagem a Yvy Maraney: a terra sem mal, e fugir deste mundo decadente que já aponta sinais que anunciam a "exaustão da terra": o fim apocalíptico.
"Quando os pajés, em seus sonhos, vão ter com Ñanderuvuçu, ouvem muitas vezes como a terra lhe implora: ‘devorei cadáveres demais, estou farta e cansada, ponha um fim a isto, meu pai’. E assim também clama a água ao criador, para que a deixe descansar; e assim também as árvores, que fornecem a lenha e o material de construção; e assim todo o resto da natureza. Diariamente se espera que Ñanderuvuçu atenda as súplicas da sua criação."(11)
A busca da yvy marane’y é uma experiência religiosa cotidiana e presente em todos os subgrupos Guarani, diferindo-se na expectativa e na forma em que se dá esta procura. Porém, se a cautela aconselha a não relacionarmos indistintamente a migração Guarani com religiosidade Guarani; em relação ao Mbya pode-se afirmar o contrário, que migrações e deslocamentos geográficos encontram-se profundamente marcados por seu caráter mítico, como na recente ocupação da Ilha do Cardoso, litoral sul de São Paulo, quando, em meados de 1994, cerca de 40 guarani oriundos do Rio Grande do Sul chegaram à ilha orientados por líderes espirituais em peregrinação messiânica.
(Texto extraído da dissertação "Ymã, ano mil e quinhentos: escolarização e historicidade Guarani na Aldeia de Sapukaí" - Faculdade de Educação - Unicamp)

(1) "Índio encomendado era o índio entregue ao espanhol para fins de conversão e catequese. Originada na Espanha medieval e no repartimento das populações mouras entre os conquistadores espanhóis, na colonização americana a encomienda se desenvolveu como uma relação de proteção e de dependência entre grupos de índios e um patrono, ou colonizador, que tinha a obrigação de doutriná-lo, em troca da utilização de seu trabalho.  Na realidade a 'encomienda' constitui uma instituição capital no desenvolvimento da colonização de mão-de-obra indígena em proveito do europeu e acobertando a escravidão indígena, pois deixava a salvo a liberdade jurídica do índio, resguardando a suprema soberania da Coroa espanhola sobre novos súditos". DE ALMEIDA, Rubem Ferreira Thomaz. Relatório sobre a situação dos Guarani-Mbya do Rio Grande do Sul: a questão de terras.  Rio de Janeiro: Fundação Nacional do Índio, datilografado. 1985, p. 27.
(2) RIBEIRO, Darcy. O Povo Brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 99
(3) CI - CARTAS DE ÍNDIAS.  Carta de Índias.   Ed. facs. 3t, Madrid. 1974 in MELIÁ, Bartolomeu. El guaraní conquistado y reducido. 3 ed. Asunción: Centro de Estudios Antropolológicos, 1993, p. 180.
(4) MELIA,   Bartolomeu. El guarani: experiência religiosa. Asunción: CEADUC-CEPAG, 1991, p. 18
(5) MELIA, Bartolomeu. GRUNBERG, George. GRUNBERG, Friedl. Los Pai-Tavyterã - etnografia guarani del Paraguay contemporáneo. Asunción: Centro de Estudos Antropológicos, 1976, p. 175.
(6) NIMUENDAJU, Curt. As lendas da criação e destruição do mundo. São Paulo: HUCITEC - EDUSP, 1987, P. 10.
(7) Idem,  p. 105.
(8) Idem,  p. 106.
(9) Idem,  p. 107.
(10) BRAND, Antonio. Op.cit., p. 17
(11) NIMUENDAJU, Curt. Op. cit., p. 71

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